{natalia bianchi por natalia bianchi}

Nasci na década de 80 na cidade de Caxias do Sul. Desde muito cedo conheci papel, lápis e tintas. Tinha o costume de desenhar pelas paredes de casa e gastava blocos e blocos fazendo desenhos e pinturas. Tive muito contato com desenho de Moda, pois minha avó materna é costureira, assim, corpos femininos e desenhos de roupas foram as primeiras imagens que conheci e reproduzi em meus desenhos no decorrer da minha infância. Na adolescência, mesmo exercendo diversas atividades nunca deixei de lado o papel e o lápis 6B que era meu preferido Ao terminar o Ensino Médio optei pelo curso de Educação Artística na Universidade de Caxias do Sul. Após concluir a graduação decidi entrar para o curso de Pós Graduação em Poéticas Visuais pela FEEVALE e desde então tenho me dedicado a produção artística de forma mais intensa e profunda.

As produções apresentadas neste blog são parte da minha trajetória artística nos últimos anos, nos quais procurei aprofundar questões autobiográficas, diretamente relacionadas a minha percepção visual peculiar. Isso, porque sou portadora de Acromatopsia, deficiência visual que gera cegueira total as cores. O que apresento aqui vai além do que enxergo, nos meus trabalhos eu expresso como sinto aquilo que vejo.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

{exposição percepções acromaticas viajando}

As obras que compõe a exposição “Percepções Acromáticas”, estarão circulando por diversas cidades como Monte Alegre, Muitos Capões, Nova Pádua, Esmeralda, Pinhal da Serra, São José dos Ausentes e Campestre da Serra. A exposição já esteve em Caxias do Sul em dois momentos: em agosto de 2010 no Catna Café e julho de 2011 no Sesc em Caxias do Sul.


Abaixo entrevista sobre a exposição:


video





Segue datas de uma parte da circulação das obras com a parceria do SESC Caxias:
De 13 a 25 de agosto – Monte Alegre dos Campos
De 26 de agosto a 5 de setembro – Vacaria
De 6 a 16 de setembro – Campestre da Serra
De 17 a 26 de setembro – Esmeralda

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

{eu não acredito que isso esta acontecendo comigo}

Estou passando por um momento um tanto complicado na minha vida nestes últimos dias e fato é que ninguém tem nada a ver com isso. Ainda assim prefiro acreditar que estou sendo correta e agindo de acordo com a minha sensibilidade e quem sabe este relato clareie as idéias de algumas pessoas, toque o íntimo de outras, lave a alma de algumas ou no mínimo ajude alguém a praticar o ato da leitura. 
Há dois meses fui chamada para atuar como professora de artes, na rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul, em contrato de caráter emergencial. Uma vida nova pra mim! Sempre quis trabalhar na minha área, fazendo o que sei e o que realmente gosto. Trabalhar com crianças e adolescentes passou a ser minha rotina. Desde então fiz muitas descobertas, alegre e realizada com a experiência, dividi com meus amigos no facebook algumas impressões como estas: 


"Entrar em sala, conseguir deixar de lado os problemas, e olhar abertamente para o aluno e o aceitá-lo como ser único e especial, seja ele como for. É tão maravilhoso perceber quanto se pode fazer a diferença na vida de alguém com gestos muitos simples e ao mesmo tempo quanto crescemos e nos tornamos melhores enquanto ser humano. Acho que ando mais aprendendo do que ensinando... #escoladavida"

"Ser professora esta me propiciando experimentar o sentimento de responsabilidade pela vida e pela evolução mental, motora, emocional e social dos seres com quem trabalho. É lindo, gratificante, emocionante e este é o melhor salário que se pode receber". 


Em pouco tempo já são muitos aprendizados, mas certamente nada perto do que ainda esta por vir. Até aqui tudo bem, os maiores problemas são pequenos diante da alegria de estar fazendo algo em que acredito ser essencial na vida dos seres humanos com quem trabalho. Talvez acordar todo dia antes das seis da manhã, organizar dezesseis turmas e conciliar três escolas seja sim trabalhoso, mas dá pra encarar.

Difícil são as adversidades da vida como sempre diz o meu pai. Difícil mesmo é encarar que muitos seres humanos ainda não estão preparados para encarar o diferente, estão inaptos a exercer a inclusão e tudo por falta de bom senso e de sensibilidade. Difícil é aceitar que ainda exista preconceito num mundo de tanta diversidade como o nosso. 

Vou ser mais clara. Para os que acompanham o blog, para os que me conhecem, sabem que tenho um problema de visão, e que devido a isto, me encaixo no termo "portadora de necessidades especiais", sim, eu sou deficiente  visual. Esta certo que sou uma pessoa completamente adpatada a estas necessidades, praticamente não faço uso de recursos ópticos ou coisas do tipo, eu nunca me vi assim, mas pela lei e pelo senso comum sou sim uma deficiente visual, o que não é motivo de vergonha, principalmente porque estou descobrindo que ha seres humanos com deficiências muito mais graves que as mentais, visuais, físicas, psíquicas e tal. 

Para resumir a história, tive de fazer uma perícia médica para poder ser admitida, só que esta perícia só aconteceu de fato depois de eu ja estar em sala de aula ha quase dois meses. Entre a primeira e a segunda consulta, com laudos minuciosos e exames que me foram exigidos, fui dada como inapta. Inicialmente fiquei surpresa, afinal tenho um diploma de licenciada em arte, conclui ensino fundamental e médio nas mesmas condições que qualquer outra criança, nunca tendo amparo de avaliações por parecer como acontece hoje. Depois da surpresa veio a rima pobre, a tristeza.

Tudo bem que o que não mata fortalece e ninguém tem a cruz mais pesada do que a que se pode carregar, mas vamos combinar, inapta não! Eu tenho auto-estima suficiente para saber que tenho competência para desenvolver as minhas tarefas, tenho segurança suficiente para afirmar que sou capaz e tenho amor  próprio e respeito ao próximo para saber que devo lutar pelos meus direitos e dos muitos que iguais a mim sofrem algum tipo de discriminação. 

Acredito que um simples laudo médico não é capaz de mensurar minhas habilidades e competências para o trabalho que exerço e muito menos possa medir minha sensibilidade para atuar como formadora de seres humanos. Sempre fui uma criança que fez tudo igual as outras, fiz dança, balet                                              clássico,  curso disso, daquilo, e sou produto sim da inclusão. Quando chegou a hora de escolher meu curso superior, o fiz sem influência de ninguém, nem porque era fácil ou difícil de entrar. Eu sempre acreditei no meu potencial e nunca medi esforços para conseguir as coisas que desejei neste tempo todo.

Eu sou produto da inclusão, inclusão ja dentro da minha casa, pois  tive o apoio,  compreensão, amor e carinho dos meus pais e familiares. Inclusão exercida no centro de apoio para deficientes visuais, inclusão exercida pelos colegas e professores das escolas onde estudei, pelas chefias e colegas de trabalho nas empresas em que trabalhei. Posso afirmar de forma categórica, que mais do que ser um produto da inclusão, sou uma pessoa que sempre foi acolhida, respeitada e amada pelas pessoas que escolhi para conviver, estudar e trabalhar. Eu posso dizer que construí uma história linda para mim, cercada de gente do bem. Nem sempre foi fácil, mas nunca foi tão complicado como agora.

Com 25 anos, é lamentável ter de passar por uma situação dessas. Saber das minhas capacidades, e ainda assim ter de sair de sala de aula, rompendo  os vínculos que estava começando a criar com seres humanos tão especiais que ainda muito vão me ensinar, deixar colegas e instituições sérias sem um profissional qualificado para a área é frustrante e desmotivador.

Ainda assim, sigo em frente, estou tentando reverter esta situação, brigando pelo que é justo e certo. Com tudo, é impossível dizer que não dói, preciso dizer que é doloroso passar por isso e ver gente passando por isso todos os dias. E triste pregar para os meus alunos a aceitação, o respeito, o olhar com o coração,  sabendo que no"mundo dos adultos" a inclusão é algo que ainda não acontece como deveria, que ainda existe sim o preconceito, que as pessoas ainda sofrem por serem discriminadas.

Acredito sim que voltarei para sala de aula, farei o que estiver ao meu alcance e conseguirei o que é direito meu, exercer a profissão para a qual estou habilitada. Sei que conseguirei fazer com que me olhem e percebam que sou igual a todas as pessoas. De qualquer forma, assim como a palavra dita não volta, o sentimento de frustração, o constrangimento e principalmente a tristeza de deixar meus alunos e de não poder exercer a profissão que amo são sentimentos que jamais esquecerei. Dinheiro algum poderá me devolver o que este misto de sensações me causou psicológica e emocionalmente.  Só o tempo irá amenizar esta dor, irá talhar meu coração para se moldar novamente ao meu peito com estes novos machucados, e então sim, poderei me dizer mais fortalecida, mesmo que tenha sido no aprendizado através da dor. 

Para mim é muito claro que não existe um  culpado nesta história, o que existe sim são pessoas que simplesmente exercem seu trabalho de forma superficial, que só pensam em si, que são insensíveis a situação e condição do outro, que não tem a capacidade de enxergar com o coração, e é para estes que eu digo, tais deficiências são muitos piores do que a minha, do que a de qualquer outro ser que por algum motivo seja diferente, seja ele deficiente ou não.

Agora peço a licença de fazer um pedido. Antes de fazer qualquer julgamento a respeito de outra pessoa procure conhecê-la, entender sua realidade, suas necessidades e motivações para ser do jeito que é, e acima de tudo, respeite-a, porque antes de ser diferente, ser negra ou branca, gorda ou magra, hétero ou homossexual, deficiente ou não,  esta pessoa é um ser humano e tem sentimentos. 

Sem respeito e sensibilidade ao próximo a inclusão jamais irá acontecer e não é este o mundo que eu quero para os meus filhos.

Encerro este texto ainda com o coração partido, e com a triste certeza de que para mim e para muitos, esta é só mais uma luta, a batalha somente chegará ao final no dia em que eu não estiver mais aqui.

Natalia Bianchi, portadora de deficiência visual, capaz, bem resolvida e mais leve agora! 


Sugiro aqui algumas reflexões:


"O quer importa não é aquilo que fizeram de ti, mas o que vai fazer com o que fizeram de ti" (Sartre)
"Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo".(Ludwig Wittgenstein) 
‏“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos...(Art. 1º)”
Declaração Universal do Direitos Humanos (1948)
" O universalismo que queremos hoje é aquele que tenha como ponto em comum a dignidade humana. A partir daí, surgem muitas diferenças que devem ser respeitadas. Temos direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza." (Boaventura de Souza Santos) 
..."Sem a Educação das Sensibilidades, todas as Habilidades são tolas e sem sentido"...(Rubem Alves)

{o melhor texto que ja escreveram sobre o meu modo de ver o mundo}

Abaixo um texto que simplesmente define o meu modo de ver, pensar e sentir o mundo dentro das minhas percepções visuais, ou melhor, dentro desta experiência unicamente encantadora e sublime.


Agradáveis dias cinzas 
(Marcelo Aramis - Jornal O Caxiense)

Natalia Bianchi tem olhos verdes que não conhecem a própria cor. No entanto, detectam em si mesmos – e no mundo ao redor – uma infinidade de traços, contrastes, volumes e texturas imperceptíveis aos olhares comuns. Os olhos da artista acreditam ser cinzas claros, com contornos cinza escuro e riscados por fissuras de diversos tons, do preto ao branco. Disseram a Natália que as cores que ela vê chamam-se preto, branco e cinza. Sem referências para questionar ou confirmar a hipótese, ela aceitou as definições. A artista tem explicações precisas sobre a sua visão limitada das cores, já a complexidade do seu olhar apurado para as formas parece ser inexplicável e sem limites. Na sua exposição de estreia,  Natalia faz a autobiografia do seu jeito de ver.
Em uma sala aconchegante no segundo piso do Catna Café, o laranja pálido dos tijolos e o vermelho vivo das luminárias pendentes sobre as mesas fazem cenário e luz cinematográfica para os sete quadros da exposição. Um filme em preto e branco. Um clássico. As obras são resultado de uma investigação do uso do preto e do branco para atender a uma necessidade de conforto visual. Portadora de acromatopsia, uma doença genética que limita a visão aos tons de cinza e causa sensibilidade à luz direta, Natalia mostra uma série escura. O preto predomina e os cinzas e os brancos recortam detalhes e dão volume, profundidade e textura às composições.
Quando criança, Natalia escolhia qualquer canetinha para desenhar, preferia os contornos e raramente pintava os desenhos. Com o tempo, ela descobriu maneiras mais autênticas de preencher as formas. Hoje pinta um grande repertório de traços com uma restrita paleta de cores. Neta de costureira, Natalia cresceu entre tecidos e desenhos de moda. Na escola, essas percepções criaram rebuscados volumes e sobreposições nos vestidos das bonecas que ela gostava de desenhar – traços elaborados demais para uma menina da sua idade. Cada retalho de renda que ganhou da avó é para a artista um pedaço de nostalgia. Na exposição, os tecidos sentimentais fizeram carimbos ou receberam espessas camadas de tinta preta. São musgos em uma montanha, nuvens carregadas, fissuras de caverna. E se modificam constantemente.
Mutante como a própria obra, Natalia, formada em Artes, pós graduada em Poética Visual e com um pé na moda, inicia com originalidade no mundo das artes plásticas. Ela pinta para agradar o próprio olhar, egoísmo sem o qual a arte não teria sentido.
Nessa exposição, mais do que mostrar sua peculiar maneira de enxergar, a artista empresta a sua visão para quem estiver disposto a admirar a arte de um jeito diferente. Os olhos cinzas de Natalia tiram o brilho da TV, repelem os dias de céu limpo, descansam na neblina e adoram nuvens de tempestade. Os olhos verdes de Natalia só conhecem de nome as cores que eu enxergo. Mas têm o olhar mais profundo que eu já vi.

http://ocaxiense.com.br/2011/07/resenha-tres-cores-de-infinitos-tons/
Veja aqui: 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

{mais inspirações}

Algumas vezes nossas asas pesam demais
Pesam mais do que tudo o que sentimos
Algumas vezes nossas asas ficam endurecidas
Perdem força
Nos impedem de seguir caminhando
Algumas vezes, não raras, nos fazem parar
Até o descanso torna-se doloroso
E então a vontade é de deitar e adormecer
Fechar as asas...

Mas suspeito de que não é assim
Que os anjos devem se comportar

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

{fitas confessionais}

Estou postando com atraso mas para conhecimento.
Durante o curso de Pós tivemos uma Disciplina com a Prof. Elaine Tedesco onde tivemos de realizar uma Intervenção Urbana..A minha intervenção, que pode fazer as vezes de semi-quase "performance" foi mais uma vez de temática auto-biográfica, abordando questões relacionadas a minhas percepção visual. 
Foi um trabalho diferente, uma nova experiência que pretendo repetir.
Esta Intervenção foi realizada em Novo Hamburgo no dia 24 de abril de 2009.Abaixo vocês podem ver alguns registros e conferir os textos que "prendi" nos troncos das árvores






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TEXTO I – BRAÇO DIREITO
CID (Classificação internacional de doenças)
H35.5  - DISTROFIA HEREDITÁRIA DE RETINA
Discromatopsia: Deficiência que ocorre nas células fotoreceptoras da retina, podendo acometer cones e/ou bastonetes em graus variados.
Conforme os receptores envolvidos, o paciente pode apresentar deficiência na visão de cores de forma variada. Um sintoma muito freqüente é a fotofobia (sensibilidade á luz), e o nistagmo (movimentos rápidos e involuntários do olho de um lado para outro). 
Sou Natalia Bianchi, tenho 23 anos e sou portadora de discromatopsia. Nunca vi as cores como todo mundo, mas ao mesmo tempo ninguém pode ver e perceber o mundo como eu.

TEXTO II – BRAÇO ESQUERDO
Frases do documentário Janelas da Alma de Walter Carvalho

“A minha diferença não é a condição física, mas o modo como enxergo o mundo”
(Evgen Bavcar)
“Ver o mundo é uma aventura curiosa. Acho que cada pessoa vê o mundo de um jeito e que não há dois mundos iguais”. (Walter Carvalho)
"...o que se vê é continuamente modificado pelo que se sabe, se espera, se quer, pelas emoções, pela cultura, pelas últimas teorias científicas..." (Oliver Sacks)
“As pessoas não sabem mais ver, não vêem nada, pois não têm mais o olhar interior, não têm mais a distância. Quer dizer, vive-se uma espécie de cegueira generalizada”. (Evgen Bavcar)
“O olho vê, a lembrança revê as coisas e é a imaginação que transvê, que transfigura o mundo”. (Manoel de Barros)
“Felizmente, a maioria de nós consegue ver também com os ouvidos e ouvir e ver também com o cérebro, o estômago e a alma. Acho que vemos um pouco com os olhos, mas não inteiramente”. (Wim Wenders)

TEXTO III – CINTURA
“Descrições quase poéticas...”
Eu não vejo o tom preciso de verde, mas sei que aquela textura de tirinhas brotando da terra fazem a grama.
Eu não sei se o céu é mesmo azul e as nuvens são brancas, mas vejo pedaços gigantes de algodão clarinho com aspecto fofo sobre um fundo acetinado levemente mais escuro.
Eu não vejo a cor precisa do mar, mas percebo imensas camadas de plástico com bordas esbranquiçadas.
Na praia, céu, água e areia se confundem, quase que como um monocromo, mas a sombra dos desníveis da areia faz machas escuras no chão, os reflexos de sol no mar fazem a água brilhar e o que de mais fosco resta é o céu com pequenos contrastes.
Noite: a escuridão do céu é um tapete de veludo preto com pontinhos brancos, os quais chamam de estrelas.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

{meus escritos - sem pretensão de enxergar as cores}



"Ver o mundo é uma aventura curiosa. Acho que cada pessoa vê o mundo de um jeito e que não há dois mundos iguais" 
(Walter Carvalho)

Não tenho a pretensão de enxergar as cores.Eu enxergo.Não imagino, enxergo mesmo. Mais acinzentadas como talvez ninguém enxergue, só eu enxergo.
Sei seus nomes convencionais, mas meu mundo multi-acinzentado não aceita nomes pré estabelecidos.
Penso que ninguém pode nomear o que não conhece e acabar com o significado múltiplo que uma coisa tem quando não se limita a um nome. Assim, ninguém pode estabelecer nomes para as minhas cores diminuindo-as a uma palavra, quando na verdade são infinitas em sensações
Acho engraçado essa necessidade que muita gente tem de ter que definir as coisas, padronizar, e por fim bater o martelo, acabando com qualquer possibilidade de questionamento ou dúvida. Procuro não ter esse tipo de comportamento. Sempre que posso me entrego a insegurança e ao frio na barriga que o desconhecido proporciona.
Incrível como alguns seres humanos tem dificuldade de entender que cada um tem seu modo peculiar de enxergar o mundo. Cada ser tem sua capacidade de julgamento, de entendimento, de expressão.O grande momento da vida esta em julgar, entender, expressar fielmente o que se pensa e sente e no fim das contas, um minuto ou um ano depois ver que pode mudar tudo outra vez, pensar diferente, agir diferente, ir de encontro ao novo. E que essa mudança não quer dizer que não se sabe o que quer e sim que é necessários expandir horizontes, desbrava-los.
Tudo isso pra dizer que quando comecei a pintar, ainda na faculdade, utilizava as cores, anotava seus nomes nos rótulos das bisnagas e sabia que cor usar com outra, que mistura fazer para obter outra cor. Pintei alguns quadros assim e achava que as coisas deveriam ser assim. Depois de um tempo acabei me tornando insatisfeita com as cores e com a forma convencional como as utilizava. Percebi que não estava pintando cores propriamente, não tinha essa preocupação porque nunca tinha certeza de que cor estava usando, não tinha certeza se a mistura das cores tinha mesmo resultado a cor que eu estava esperando a menos que alguém que me dissesse. Muito mais do que pintar as cores, estava experimentando tons, descobrindo nuances, explorando sensações visuais num campo (in)conscientemente desconhecido. A disciplina de pintura acabou, concluí alguns trabalhos outros ficaram inacabados e jogados num canto bem como minha vontade de mexer com cores.Penso que seria melhor nem saber que não via as cores como todo mundo, nem ter quem me dissesse que deveria usar vermelho com cinza e marrom com amarelo ou alterar neutros e coloridos, assim viveria instintivamente errando para os outros (quem sabe?) "me acertando"  O tempo passou e decidi que iría entender melhor meu mundo acromático, mundo que me parecia tão óbvio, tão acabado em sentido, tão pronto, tão sem questionamentos a serem feitos, tão seguro. Acabei descobrindo que tudo era muito diferente do que pensava. O que esta pronto para mim é o mundo colorido, onde estabeleço relações entre as cores, obedeço (ou não) padrões estéticos, eventualmente caio nos clichês. A cor vem pronta, quente ou fria, mas vem pronta, acabada, variam os tons, mas nunca perdem sua essência de "colorido". Ja a minha infinidade de cinzas é instigante, nunca saberei se conheço todos as possibilidades de cinzas que o mundo tem a me proporcionar, mas continuarei buscando.
No fim das contas embora consciente de que não vejo as cores da forma convencional, acho que seria interessante não ter essa consciência só pra poder ver como meu instinto visual agíria, seria uma experiência interessante.
Acho que foi necessário desenvolver essa consciência no mínimo pra saber a hora de atravessar a rua, entre outras coisas que acabam surgindo no dia-a-dia e que preciso lidar, mas insisto que seria muito interessante não saber de tanta coisa.
Ainda farei um trabalho sobre isso!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

{percepções - pela curadora mona carvalho}

Confiram o texto que a Curadora Mona Carvalho escreveu sobre o meu trabalho para "O Café"
Resumidamente definiu muito bem a minha "porção artista".

Percepções: Obras de Natalia Bianchi


Até mais!